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Qual será a influência da Lava Jato na eleição de 2018?

Publicado em 27 de Junho de 2018 às 13h

A operação Lava Jato causa estresse no sistema político brasileiro. Contudo, o estresse do sistema não significa, obrigatoriamente, a sua limpeza por completo. A limpeza pode ser parcial. Ou não ocorrer. Se a última possibilidade for verdadeira, estou diante do fato de que a operação Lava Jato estresse o sistema, mas não serve como detergente para a sua limpeza. Nesse caso, trabalho com duas possibilidades: A Lava Jato limpa fracamente o sistema. E a “sujeira” não volta com tanta intensidade. Ou a Lava Jato não limpa o sistema e a “sujeira” volta com os mesmos ou outros atores.

As duas possibilidades teóricas apresentadas permitem a seguinte indagação: A Lava Jato influenciará o comportamento dos eleitores na eleição de 2018? Em 2018, ocorrerão eleições para presidente da República, governo dos Estados, Câmara Federal, Senado e Assembleias Legislativas. Nesse sentido, se um acusado pela Lava Jato for reeleito ou vencer a eleição, a Lava Jato não “limpou” o sistema político, apenas o estressou. Mas se o competidor não for reeleito ou não vencer a disputa eleitoral, a Lava Jato “limpou” o sistema.

Destaco que o raciocínio exposto deve ser compreendido da seguinte maneira: Se 100 deputados federais citados pela Lava Jato forem candidatos à reeleição, quantos serão reeleitos? Se 5 governadores investigados pela Lava Jato serão candidatos à reeleição, quantos serão reeleitos? O porcentual de reeleitos sugerirá o efeito da Lava Jato sobre a escolha dos eleitores. Quanto maior o insucesso eleitoral dos competidores, maior a eficiência da Lava Jato como detergente do sistema político.

A disputa simbólica que sugerirá o forte efeito da Lava Jato sobre a escolha dos eleitores será observada na eleição presidencial. O ex-presidente Lula pode vir a ser candidato novamente. Mas caso não seja, apoiará um competidor. Deste modo, qual será a influência da Lava Jato sobre a candidatura do ex-presidente ou do ator que terá o seu apoio?

Pesquisa Datafolha divulgada no mês de junho evidencia que 18% dos eleitores brasileiros preferem o PT. E 59% não preferem nenhum partido. O Datafolha mostrou que o ex-presidente Lula lidera em todos os cenários eleitorais e tem rejeição de 46%. O petista obtém, segundo Datafolha, maiores intenções de voto entre os eleitores de menor renda e com menor escolaridade. Pesquisa Ipsos, também em junho, mostra que 64% dos eleitores associam, de modo espontâneo, o PT a Lava Jato.

A pesquisa Ipsos questionou, de forma espontânea, quais nomes estão envolvidos na Lava Jato. As respostas foram: Lula (PT), citado por 57% dos entrevistados; Aécio Neves por 44%; Michel Temer teve 43% das citações. Seguido de Dilma Rousseff 35%; e Eduardo Cunha, 33%. O desempenho eleitoral do ex-presidente Lula e do PT revelados pelas referidas pesquisas sugere, neste instante, que a Lava Jato não é força suficiente para exterminar do sistema político, e, claro, do ambiente eleitoral, atores. A Lava Jato é variável estressora. Mas não detergente, isto é: não limpa o sistema. Mas por que isto ocorre?

O desempenho eleitoral do ex-presidente Lula explica-se em razão da impopularidade do governo Temer, que surgiu por causa das reformas propostas, em particular, a reforma da Previdência e das inúmeras denúncias de corrupção. Além disto, o governo Temer não consegue, até o momento, soerguer a economia. A liderança do candidato Lula nas pesquisas também advém da presença majoritária de eleitores que defendem o Estado como indutor da economia (Datafolha, junho de 2017), da memória positiva da sua era e da carência social de parcela majoritária do eleitorado brasileiro.

Pesquisa qualitativa realizada pelo Instituto Uninassau entre os eleitores recifenses revelou que o ex-presidente Lula é reconhecido por parcela do eleitorado como alguém que fez pelos pobres. E, para corroborar este dado, a pesquisa do Datafolha já citada revela que o ex-presidente tem mais eleitores entre os que têm menor renda. Entretanto, o dado relevante é que a Lava Jato conseguiu colocar todos os políticos no mesmo saco.

Para o eleitor, como bem demonstram diversas pesquisas, qualitativas e quantitativas, “todos os políticos são iguais”. Como previ em diversos artigos, a Lava Jato ao expor variados atores supostamente envolvidos com corrupção contribui para soerguer o PT e o ex-presidente Lula, pois sugere que “todos são iguais” e os que irão “entrar” na política ficarão semelhantes. A Lava Jato, portanto, pode, inclusive, inibir os eleitores a escolherem um candidato “novo”. Deve-se reconhecer como candidato “novo” aquele sem história política e ausente das delações da Lava Jato.

Ressalto que na análise do comportamento do eleitor não se deve desprezar as condições sociais e econômicas do país e a relação eleitor-candidato. Eleitores têm demandas, e não necessariamente republicanas ou guiadas pelo desejo de punição ao suposto corrupto. Eleitores desejam benefícios, bem-estar e podem ter sentimentos por competidores.

A Lava Jato pode até sugerir indícios de que o sistema político sofre intensa limpeza. Opto, contudo, por considerar que ela fará fraca limpeza. Ela não atua como detergente do sistema político. E sim, como variável estressora. Tendo como base o pensador Nassim Taleb, concluo que o sistema político brasileiro é anti-frágil, sofre estresse, mas não quebra, isto é, não permite a limpeza por completo. As vindouras eleições mostrarão se a minha tese é verossímil.

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